Sobre pobreza, empreendedorismo, acesso, ordem e progresso

Posted on April 14, 2010

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Motivado por um leitor do meu twitter, @PHLemos, transformo agora em post, texto corrido, raciocínio completo, uma série de tweets que enviei em 31 de março.

Às 9h17, eu tinha enviado: “Quem ignora que outras pessoas poderiam usar ao mesmo tempo a calçada/escada/porta/recurso/planeta é o que? Ignorante?”. Perguntei isso porque estava irritado por tantas e tantas vezes ter de atrasar, interromper ou deslocar meus trajetos devido a pessoas que obstruem o fluxo. Seja por estarem perdidas, sem saber para onde ir, ou por estarem sem rumo, sem objetivo, sem pressa. Ou ainda por não terem noção espacial do quanto ocupam. Ou falta de noção da necessidade de compartilhar, mesmo que seja um simples espaço. Longe de mim querer ser o mais importante; não reclamo por querer exclusividade, prioridade. Reclamo por tantas e tantas vezes meu direito à igualdade de uso do espaço público ser impedido por outras pessoas – que nem sempre estão com dificuldades locomotoras. E, na verdade, reclamei sobre o fato para introduzir a reflexão genérica que vem me ocorrendo há algum tempo.

Às 9h21: “Impedir livre fluxo é hierarquia. Problema: ser pobre, só ter acesso a pobres e trancar os caminhos. Brasil, pra frente! Urgente!”. Este é um aprendizado possibilitado pelas leituras que fiz por meio da Escola de Redes, e das conversas com Augusto de Franco. Não que ele seja o único a acreditar ou expressar isso, nem que seja responsável pelas decorrências dessa constatação fatual. Cito porque é uma visão necessária, cito para compartilhar a fonte, o acesso. Afinal, é disso que a reflexão trata.

Pelos estudos da teoria de rede, hierarquia significa caminho único, fluxo mediado por controladores. O oposto disso é rede, ou multiplicidade de caminhos e acessos, todos conectados com todos e tudo. Logo, minha análise do fluxo de pessoas se faz plausível. Vale tanto para um local cheio de portas, ou fitas de controle de fluxo, ou sinais de trânsito. Não que sejam ruins, mas, por definição e efeito, obstruem, limitam, impedem, controlam.

9h23: “Muitos pobres, sem saber, reproduzem o que alguns ricos tem de pior: impedem acesso a movimento, que gera riqueza”. Aqui é um pensamento decorrente da compreensão da teoria de redes. Como disse um político, cujo nome não recordo: “o problema do pobre é que ele só tem amigos pobres”. Entre cafezinhos, Augusto de Franco me explicou: se você não está conectado a fluxos de conhecimento, então você não tem um caminho até o conhecimento. E se você não tem acesso a conhecimento, então você vai permanecer pobre. Mas, se você tem uma boa rede de contatos, fontes de informação, então você tem um capital social enorme, pois tem muitas possibilidades de obter capital intelectual, e, daí por diante, todos os tipos de capital”.

Resumindo: você precisa ativar caminhos, portas abertas, pontes, acessos às coisas boas que você almeja. Você precisa se posicionar nos fluxos, não nos cantos, e não obstruir os fluxos tentando organizá-los. Uma vez conectado, e sabendo por que, você saberá como acessar o conhecimento, o conteúdo, a riqueza, o que faz sentido, o que tem valor.

9h27: “Realidade, livra-nos dos exus-tranca-rua da sub-consciência coletiva. Liberemos sempre, mais e melhor a colaboração que emerge!”. É comum nas religiões afro-descendentes a entidade exu tranca-rua, que obstrui os caminhos das pessoas. Ora, parece que nem precisamos acreditar no sobrenatural para ver isso acontecer nos lares, veículos de comunicação, ruas, ambientes públicos. O próprio Estado, a República, parece limitar-se a um grande jogo de quem-indica, de processos, protocolos, formulários, pedágios, barreiras, instâncias, interrupções. O verdadeiro casamento da burocracia com a hierarquia, fazendo de conta que é controle, dando condições à corrupção (abuso dos gatekeepers, pessoas que controlam os portões do inferno da fazenda) e, no máximo, possibilitam a tal governabilidade – tipo um “me deixa quieto fazendo o que eu quero no poder do meu cargo de direito. Nã há inovação, agilidade ou esforço macro que prevaleça num regime marcado por essas aberrações.

12h08: “Atenção galere que não me segue aqui mas se aglomera feito pólvora nas calçadas: o CAT da pref SP tem 70 mil vagas de emprego”. Tem tanta gente sem o que fazer, e tanta coisa a ser feita. Por que tanta gente brinca de governar, de ser representante público, mas esquece de juntar esse pessoal perdido e treinar para as vagas? O que seria dar prioridade à educação para o trabalho, se não for isso?

12h11: “Ei ongs empreendedores escolas unis igrejas: dêem blitz perto de metrôs chamando para as 70mil vagas do CAT da prefeitura SP”. Se o pobre é pobre por falta de acesso ao que tem valor, então por que não fazemos um esforço de realmente formar rede, ou seja, liberar caminhos, dar acesso, energizar conexões! Afinal, tudo está implicado em tudo – a realidade do outro afeta a minha, tudo é interdependente. Que tal, senhores responsáveis, pensarmos na realidade ao invés de pensar na descrição do cargo ou na politicagem de gabinete (política de escritório)?

12h17: “Nesta Páscoa, não dê ovo: co-labore para um futuro novo, não só pros seus, mas pra todo povo. Ou sucumbiremos juntos sofrendo para sempre”. Então: ou você faz parte da solução, ou do problema. Ou você é um passivo, ou tem atitude, age, empreende, é proativo, se mexe, participa, faz parte. O que você possibilita, o que você proporciona, o que você lidera, o que você empreende? Como você tem responsabilidade social? Para que você está acordado? Como você acha que as coisas vão melhorar? Acredita em algo macro, imposto ou transcendente? Chega de ser zumbi que trabalha e vota!

Vamos parar de interpretar o “Ordem e progresso” da nossa bandeira como “fica na fila até chegar sua vez de ir pra frente”. Campanha abram alas! Campanha pra frente, brasileiro! Campanha mexa-se, bota pra fazer!

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Posted in: Português